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À boca do saco
Sacas do pão, talêgos, e outros foles
São aos retalhos, de tecido bordado, com aplicações ou em croché os muitos sacos que integram esta exposição. Quem diz sacos diz, na riqueza da língua portuguesa e na diversidade das nossas tradições, bornal, fole, bolsa, mântica, patrona, alforge, talêgo (Alentejo) ou taleiga, e outros nomes mais. E que fazem eles? Guardam, preservam, acomodam, reservam, conservam, arrecadam e respeitam os pertences das gentes, ou não fosse o saco amniótico o primeiro dos sacos de que o ser humano dispõe e o último o
saco dos ossos*.
Dão testemunho dos hábitos, estes portáteis auxiliares quotidianos, muitas vezes confidentes, por muitas formas, de segredos e de tempos da vida vivida. Cada bocado de tecido de um talêgo aos retalhos conta, na verdade, alguma coisa da vida de quem o fez e dos seus familiares: um pedacinho será o que restou da camisa do pai, ou do avental da avó, ou da camisa de dormir da mãe, um retalho de um cortinado ou de um pano de mesa em desuso.
As algibeiras ou patronas, usadas à cinta pelas mulheres para levar o dinheiro; o talêgo da tropa com os haveres do magala, o bornal ou alforge do trabalhador do campo para levar provisões; as sacas para levar as amêndoas nos casamentos**, feitas com tecidos mais ricos e muito decoradas; ou mais modestas, para transportar o livro do deve e haver da mercearia e outros usos familiares, como as sacas do pão, que vão à padaria e trazem o pão, o acomodam e conservam.
As sacas em geral, e as sacas do pão em particular, são elementos sempre presentes nos enxovais das raparigas do Portugal antigo (prática que permaneceu até cerca de 1960/70). Antes da era dos descartáveis (como os sacos de plástico), eram usadas sempre que fosse necessário transportar alguma coisa. Nelas se aplicavam os mais aprimorados brincos dos lavores femininos: nuns rendas, noutros aplicações, folhos, dizeres bordados, retalhos de chita colorida. Mesmo as formas — rectangular, quadrangular ou circular — deixam ver, na diversidade, um elaborado equilíbrio entre adequação e ornamento, entre funcionalidade e estatuto simbólico. Hoje quase esquecidas, sem lugar no reino do pronto-a-usar-e-deitar-fora, as sacas, talêgos e outros foles conduzem-nos numa viagem a um passado não muito distante, mas irremediavelmente longínquo. Que é também uma viagem pela memória. Afinal, não há saca sem baraça, e as memórias andam sempre à boca do saco…
* Talêgo dos ossos, de tecido branco, característico da região do Alentejo, serve para colocar a ossatura quando necessita de ser transladada.
** Era uma prática comum lançar confetis (bolinhas de açucar de várias cores) aos noivos à saída da igreja.
À boca do saco
Sacas do pão, talêgos e outros foles
Exposição temporária no Museu do Pão, Seia
Abril a Outubro 2007
Comissariado: Diana Regal
Objectos de: Adelaide Valente, Albertina Morgado dos Santos, Celeste Jesus, Inácia Magro, Inês Valente, Jacinta Pavia Ferrão, M.ª Cristina Pavia, M.ª Estela Coelho, M.ª Gertrudes Piçarra, M.ª José Cascais, M.ª Lúcia Mira, Zulmira Dias Morgado.
Agradecimentos: Antónia Manilhas, Joaninha Duarte, Jorge Duque, Fernando Moital, Leonor Piçarra, Regina Guimarães, Rita Valente.
Um Projecto: Colecção B |